Brasil é o país que mais investe em inovação na América Latina 20/05/2008

Na atmosfera global de concorrência, a inovação é primordial para que empresas de mercados emergentes consigam uma boa posição competitiva. Nos três países mais industrializados da América Latina – Brasil, Argentina e México – os esforços de inovação ainda são muito baixos. Os três países, entretanto, possuem uma elite de empresas que investe acima da média em pesquisa e desenvolvimento. No Brasil, as vendas industriais desse grupo chegam a 25%, frente aos 12,7% do mesmo grupo de elite argentino e aos 5,3% do mexicano. O grupo brasileiro gasta, em média, 1,4% do faturamento com inovação. A elite industrial argentina mais inovadora gasta 1,08%, no México o número equivale a 0,81%. Os números fazem parte da pesquisa “Firmas inovadoras em três mercados emergentes”. Em entrevista exclusiva ao TIC Brasil Mercado, o professor Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação, ligado ao Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e coordenador da pesquisa, disse que o maior sucesso do grupo brasileiro está no fato de que o investimento em inovação no país é igualmente dividido em máquinas e equipamentos, em pesquisa e desenvolvimento, entre outros itens. Arbix falou ainda sobre a contribuição que a pesquisa pode dar ao modelo de inovação tecnológica no Brasil.

TIC – Custa caro inovar? Por que um índice baixo de inovação nas empresas?

Glauco Arbix – Não é muito barato inovar no Brasil. Em geral, é preciso investir, o que nem sempre é simples e tem custo alto. Inovação diz respeito à maneira como se trabalha e combina o conhecimento. Por isso mesmo, as pessoas são os ingredientes mais preciosos da inovação. Isso implica em educação, qualificação, treinamento. Implica também em um sistema de funcionamento da empresa mais flexível, capaz de permitir que as pessoas conversem, troquem informações e tomem iniciativas. Nada disso se dá espontaneamente no interior das empresas. Nem sempre por decisões contrárias, mas às vezes por hábito, desinformação ou falta de visualização de meios disponíveis, mas que só aparecem se a empresa estiver preocupada com sua evolução. Dito isso, quando a inovação ocorre, se ela de fato empurra a empresa para a frente, se melhora seu desempenho, se amplia sua participação no mercado, se ocupa uma posição de maior destaque em seu setor ou segmento de atuação, a inovação pode sair muito mais barata do que se pensa. Esse risco inicial pode ser diminuído com um bom ambiente para a inovação, menor burocracia, impostos, taxas e financiamento de mais longo prazo.

TIC – Apesar do índice baixo, há uma elite de empresas nesses países que inovam além da média. E no Brasil, a importância destas firmas para as vendas industriais do país chega a 25%, superior aos 12,7% do mesmo grupo de elite argentino e aos 5,3% do grupo mexicano. O que explica a superioridade brasileira?

Arbix – A indústria brasileira é mais avançada do que esses dois países. Temos um parque mais integrado, mais complexo e diversificado. Estamos capacitados para utilizar áreas de ponta do sistema produtivo industrial. E, em muitos setores, temos empresas de muito destaque. Não somente no mercado interno ou latino-americano, mas também no plano internacional. Se mantivermos os olhos nesse seleto grupo de empresas, vamos ver que estão conectadas de alguma maneira com o que há de mais avançado no mundo. E, muitas vezes, batem seus concorrentes em mercados muito sofisticados. Ou seja, jogam e vencem no campo do adversário, contraria a torcida e o juiz. Se compararmos o Brasil com países de renda média, nosso parque industrial é muito avançado. Isso, porém, se nos conforta, não pode nos levar a nenhuma acomodação. Temos que buscar os padrões mais altos de excelência. Ou seja, temos que nos comparar com o que de melhor existe. É a maneira de avançar.

TIC – Qual foi a principal diferença de ambiente de inovação que a pesquisa encontrou em relação aos três países latinos?

Arbix – O Brasil se abriu para o exterior. Após anos de enclausuramento, de mercado fechado, muitas empresas foram expostas à concorrência internacional a partir dos anos 1990. Um pouco silenciosamente, conseguiram avançar. Reorganizaram suas estruturas, arejaram suas hierarquias, melhoraram seus padrões de gestão, acertaram suas estratégias, adaptaram seus procedimentos aos padrões internacionais e buscaram a exportação e a expansão no exterior como objetivos maiores. Um grupo – ainda pequeno – teve sucesso. O mesmo movimento se deu no México e na Argentina, mas em escala muito menor. Na Argentina, durante anos, a condução da política econômica pressionou para baixo o desempenho industrial, em especial do segmento exportador. No México, uma espécie de divisão de trabalho perversa após o NAFTA (acordo entre Estados Unidos, Canadá e México) praticamente deixou a exportação para as subsidiárias estrangeiras instaladas no México. No Brasil, as exportações passaram a integrar a estratégia das empresas nacionais, pela primeira vez na sua trajetória histórica.

TIC – A maioria das empresas que não investem em inovação se queixam dos tributos e da burocracia da exportação. Qual a solução para estes problemas?

Arbix – Continuar reclamando. Muita coisa mudou. Há muito mais facilidade e incentivo para a exportação. Tem muita coisa para melhorar, sem dúvida. Mas o país avançou. Nos últimos anos houve uma diminuição sensível dos impostos para os exportadores. Houve também a simplificação de processos. E, para quem investe em pesquisa e desenvolvimento (P&D), houve a Lei do Bem, que significa uma ruptura com a tradição “cartorial” brasileira. Por essa lei, as empresas não precisam mais de autorização prévia para efetuar os descontos previstos. Prestam contas, claro, mas a posteriori.

TIC – Os dados obtidos pela pesquisa podem ajudar a formular um novo modelo de inovação tecnológica no Brasil?

Arbix – A pesquisa não estava voltada para isso. No entanto, muita coisa pode ser visualizada a partir dela. As políticas públicas precisam ter claramente seu foco nas empresas. Se é certo que a inovação ocorre nas universidades, centros de pesquisa, ONGs, é mais do que certo que o local por excelência da inovação é a empresa. É lá que as idéias saem do papel e ganham o mercado. É lá que os empregos de melhor qualidade são gerados, com maiores salários e maior renda. Em segundo lugar, a pesquisa mostrou que é preciso aumentar o grau de articulação da nossa economia. Articulação entre o setor público e privado, entre as empresas e setores industriais. Essa articulação é chave, pois ajuda a queimar etapas, a potencializar idéias, reduzir custos e aumentar a qualidade do fluxo de conhecimento disponível. Em terceiro, precisamos montar sistemas de monitoramento da inovação nas empresas. Sem saber como estão, como o seu desempenho pode ser comparado com seus concorrentes, dificilmente as empresas conseguirão detectar seus problemas e avançar para as áreas de maior valor agregado, que são as mais intensivas de conhecimento.

(Fonte: Portal Inovação – 15/05/2008)

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